Vestígios da solidariedade nos centros de treino dos movimentos de libertação em Angola
Abstract
Desde meados dos anos 1970 até finais dos 1980, Angola acolheu guerrilheiros que lutavam pela libertação de outros estados da África Austral, com a participação de conselheiros cubanos e soviéticos. Os estudos sobre as lutas de libertação na era da Guerra Fria passaram de narrativas centradas na nação a perspectivas globais e locais. Nesta transformação, os encontros internacionais que tiveram lugar no âmbito dessas lutas atraíram a atenção dos historiadores. Em particular, o campo de treino militar passou a ser visto como um ambiente que alimentava relações sociais e políticas específicas, mas pouca evidência física desses campos permanece. Este artigo é baseado em fotografias tiradas em Camalundu e Caculama, dois locais na província de Malanje, em Angola, onde os restos desses campos ainda são visíveis. Em Camalundu, a arquitectura colonial portuguesa aponta para a função original do local, enquanto slogans em inglês e espanhol, referenciando a história sul-africana e movimentos revolucionários globais, falam da presença de cubanos e sul-africanos e fornecem indicações de como estes viram seu próprio papel no contexto da política internacional da época. Em Caculama a natureza isolada e defensiva do local e das suas instalações evidencia o papel sul-africano em relação ao pensamento estratégico angolano. As fotografias complementam as memórias e testemunhos orais existentes sobre a política do exílio e sobre a vida nos campos, fornecendo evidências de diferentes tipos sobre a presença dos combatentes da libertação e suas relações com o mundo em geral. Também servem para preservar um registo histórico visual e tangível que, na ausência de medidas de preservação, está em perigo de decadência e de ficar irreconhecível.